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          O Mistrio do 5 Estrelas

          Marcos Rey

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Impresso Braille em 2 partes na diagramao de 28 linhas por 34 caracteres, da 21 edio 
Editora Global, 2005.
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          Segunda Parte

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          (C) Palma B. Donato, 2004
          20 Edio, Editora 
          tica, 2003
          21 Edio, Global 
          Editora, 2005
          1 Reimpresso, Global 
          Editora, 2006

          Diretor Editorial:
          Jefferson L. Alves

          Gerente de Produo:
          Flvio Samuel

          ISBN 85-260-0998-2

          Direitos Reservados
          Global Editora e 
          Distribuidora LTDA.
          Rua Pirapitingi, 111 -- 
          Liberdade
          CEP 01508-020 -- 
          So Paulo -- SP
          Tel.: (11) 3277-7999
          Fax: (11) 3277-8141
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e-mail: ~,global@globaleditora.~
  com.br~,
~,www.globaleditora.com.br~,
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<Tmist. 5 estrelas>
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Algum esteve no apartamento 
  de Guima

  Na segunda-feira  noite, Guima apareceu na casa de tia Zula, plido. Como Leo e Gino no esperavam por ele, logo perceberam que havia novidade.
  -- Hans recebeu o recado da academia -- disse o porteiro.
  -- Como voc sabe? -- perguntou Leo.
  -- Algum esteve no meu apartamento -- declarou Guima sentando-se como se as pernas no pudessem suportar o peso do corpo. -- A porta foi forada com um p-de-cabra.
  Gino no se surpreendeu.
  -- Deve ter sido simples assalto.
  -- Nada foi roubado -- esclareceu Guima. -- Teria sido fcil levar meu televisor porttil, j que no guardo dinheiro no apartamento.
  -- Viram algum estranho entrar?
  -- Voc conhece meu prdio, Leo. Trs andares, sem porteiro. Qualquer pessoa entra. Mesmo assim nunca houve assaltos.
  Leo no aceitava a suspeita de Guima.
  -- Acha que Hans esperava me encontrar?
  -- Isso no  to absurdo. A prova disso  que esteve escondido l. No hotel todos sabem que somos velhos amigos de famlia. Era um esconderijo provvel.
  Leo olhou para Gino  espera de que o enxadrista desse sua opinio, que, como sempre, foi lenta, segura e refletida.
  -- Evidentemente no foi assalto -- disse ele. -- Ladres sempre roubam alguma coisa. Para mim estiveram  sua procura, Leo, ou apenas quiseram responder ao recado. Voc lhes deu um susto e eles repicaram. Como na luta de boxe quando os pugilistas somente ensaiam golpes.
  Guima concordou, pondo-se de p:
  -- Cutucar ona com vara curta  perigoso -- concluiu. -- Vamos parar com essa brincadeira. Leo, esquea o Baro e o Hans. Se 
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esto metidos em contrabando, como devem estar, mais cedo ou mais tarde cairo nas malhas da polcia. D tempo ao tempo.
  -- Enquanto isso fico aqui, preso, dando trabalho  tia Zula?
  -- Voc no nos d trabalho -- atalhou Gino.
  -- Podemos arranjar outro esconderijo. Um amigo meu tem um stio. Bom lugar para umas frias.
  -- Obrigado, Guima. Voc  um camarado. Vou pensar.
  Guima saiu e os primos ficaram conversando at muito depois de tia Zula chegar da cantina. O perigo que poderia estar correndo no era para Leo uma sensao agradvel. E se descobrissem que estava escondido a menos de um quilmetro de sua casa? No 
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apenas sua vida estaria ameaada como tambm as de Zula e Gino.
  Leo e Gino tomavam caf com leite na cozinha, sob o sol que entrava pela janela, quando disse ao primo:
  -- Preciso dar um telefonema.
  -- Para quem?
  -- Para o delegado Arruda. Precisa saber da ligao que existe entre Hans e o Baro. Se o Alemo tiver passagem pela polcia, vai se complicar.
  -- Deixe, eu fao isso.
  -- No, primo,  trabalho que eu mesmo quero fazer.
  -- Voc no deve sair de casa.
  -- Vou s at o orelho.
  Gino, enquanto passava manteiga no po, aperfeioou a idia.
  -- Est certo, v, mas disfarado.
  -- Disfarado, como?
  -- Tenho duas cadeiras de roda. Sabe dirigir esse veculo? Sempre uso um bon quando saio. Leve. E use meus culos de sol. Se Hans estiver por aqui no o reconhecer.
  Leo hesitou, julgando a cautela exagerada, mas assim que tia Zula foi para o trabalho, ps o bon e os culos escuros de Gino e treinou o manejo da cadeira de rodas no corredor.
  -- Voc mudou de cara -- disse Gino. -- V sossegado.
  Leo, j na rua, movendo as rodas da cadeira, sentiu-se mais suspeito com o disfarce do que se sentiria sem ele, com a impresso de 
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que todos descobriam nele um falso paraplgico. Evitando cruzar  olhares, e fazendo um esforo fsico maior do que o suposto, foi chegando ao orelho. Precisava fazer duas ligaes: uma para pedir informaes e outra para o delegado.
  A segunda foi mais rpida que a primeira.
  -- Quero falar com o doutor Arruda. Diga que  o Leonardo Fantini, o rapaz do Emperor Park Hotel.
  Momentos depois o delegado atendia.
  -- Pode falar, garoto.  o Arruda.
  -- Doutor, acho que sei quem matou Ramon Vargas. Chama-se Hans e trabalha no hotel, na lavanderia. Hans Franz Mller.
  -- Como  que soube disso?
  -- Hans foi lutador profissional e a pessoa que me agrediu era muito forte. Veja os antecedentes dele, doutor. Vai encontrar alguma coisa.
  -- Escute aqui, garoto, nenhum hotel de classe aceita empregados com passagem pela polcia. Vejo que continua querendo envolver outras pessoas para se safar. Crie juzo e comparea  delegacia.  o melhor que tem a fazer, principalmente se  inocente.
  -- No vai ento verificar a ficha? O nome  Hans Franz Mller -- repetiu.
  J tomei nota. Mas o que me preocupa  voc. Converse com seus pais, aconselhe-se e venha at aqui. Se continuar escondido se comprometer muito mais.
  -- Vou pensar -- disse Leo, sem saber o que dizer, e desligou.
  Ao voltar para a casa de tia Zula, Leo observou que por mais que se esforasse a cadeira mal se movia, como sucede nos pesadelos. Ento aconteceu uma surpresa. Uma pessoa muito conhecida ultrapassou-o, brilhando ao sol, em passos rpidos e elegantes, perfumada e fresca como se tivesse sado do banho: ngela. Sentindo um impacto no corao, Leo deu mais ao  cadeira de rodas, seguindo-a a alguma distncia, sempre a olh-la, e to atrado por ela que passou da casa de tia Zula. Depois, quando ngela atravessou a rua, fez meia-volta, amargurado por causa do telefonema que no dera certo e por ter visto a quase-namorada naquelas tristes circunstncias.
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  -- Gostou do veculo? -- perguntou Gino, sorrindo, com aquele bom humor que costumava enfrentar a vida.
  -- No corre como um Frmula 1, mas  bom.
  -- Telefonou?
  -- O doutor Arruda no acreditou. Disse que nenhuma pessoa com antecedentes criminais consegue emprego num cinco estrelas.
  -- Isso deve ser verdade. Por outro lado, se est l por indicao do Baro, ele no ia se arriscar se Hans tivesse uma folha suja.
  -- Mas ainda tenho esperanas. Tomou nota do nome de Hans. Certamente vai averigar alguma coisa.
  -- O que mais o delegado disse?
  -- Pediu que me entregasse. Respondi que ia pensar.
  -- Mas nessa sada -- acrescentou Leo -- aconteceu outro fato que me abalou mais que o telefonema.
  -- O que, primo?
  -- ngela passou por mim na rua.
  -- Ela viu voc?
  -- Por sorte no me reconheceu -- disse Leo tirando o bon e os culos escuros.
  -- Como v, o disfarce era de primeira -- brincou Gino tentando extrair um sorriso de Leo. Mas no conseguiu. O primo estava muito azedo.

Guima e Hans na delegacia

  O homem louro, alto e sardento que estava na sala do doutor Arruda, de camisa esporte e grandes braos nus, era Hans Franz Mller. Ele parecia calmo at demais, e apenas o cigarro entre os dedos nicotinizados podiam dar alguma impresso de nervosismo. O homem robusto e simpatico, j nosso conhecido, era o Guima. Um parecia no tomar conhecimento da presena do outro, embora sentados a pequena distncia.
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  Doutor Arruda dirigiu-se primeiramente a Hans.
  -- Chamei vocs dois aqui, ao mesmo tempo, porque esto ligados ao mesmo caso, o daquele ladrozinho no Emperor Park Hotel. Conheceu ele, senhor Hans?
  -- Apenas de vista.
  -- Alguma vez ele manifestou algum sentimento contra o senhor?
  -- Nunca.
  Doutor Arruda fez um intervalo preparatrio para outra pergunta:
  -- Conhece o senhor Oto Barcelos?
  -- No  o que chamam de Baro?
  -- Esse mesmo.
  -- Todos o conhecem no hotel. Vejo-o sempre.
  Novo intervalo que o delegado aproveitou para acender um cigarro.
  -- Esse garoto, Leonardo, telefonou procurando implic-lo no assassinato dum traficante chamado Ramon Vargas. Conheceu Ramon Vargas?
  -- No, senhor.
  -- Imagina por que o rapazinho quer envolv-lo nesse crime?
  Hans respondeu imediatamente e sem reaes faciais, como sempre.
  -- No.
  -- O senhor j foi vtima de algum roubo no hotel?
  -- J, me roubaram um relgio, mas no sei quem foi.
  -- Teria sido o *bellboy*?
  -- No sei.
  -- Pode ir e obrigado.
  Quando Hans se retirou, o delegado dirigiu-se a Guima:
  -- J sabemos que foi o senhor quem arranjou o emprego para Leo no hotel e que  amigo da famlia. Esse garoto est indo alm dos limites. Telefonou para c acusando Hans de homicdio. Um homem que nunca teve passagem pela polcia. Isso me leva a crer que  doido. Est precisando de cuidados mdicos urgentes. O senhor o tem visto?
  -- Sim, eu o vi depois que foi despedido do hotel.
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  -- Sabe onde est agora?
  -- No.
  -- Gostaria que nos ajudasse descobrir onde est. Nossa inteno  mais de reeduc-lo do que de castig-lo. Pode cooperar?
  -- Se souber dele, aviso.
  -- Obrigado.
  Guima no se moveu.
  -- Doutor, eu queria lhe dizer que Leonardo sempre foi um rapaz exemplar. Nunca fez nada errado.
  -- Acredito, mas acusar duas pessoas de crime de morte no me parece coisa de gente sensata. Um homem por todos admirado, como Oto Barcelos, e algum que s conhecia de vista. E o que me diz do roubo do isqueiro?
  -- Leo no roubou, no  ladro.
  -- Mas o isqueiro foi encontrado em seu bolso.
  -- Algum colocou.
  -- Vejo que o garoto conseguiu convenc-lo. O senhor quer ajud-lo. Mas faria melhor se o trouxesse at aqui. Bom dia, seu Guima.
  Guima ia saindo mas ainda no saiu desta vez.
  -- Doutor, no acha estranho que um lutador de luta-livre, como Hans Franz Mller, que ganhava bom dinheiro, duma hora para outra fosse trabalhar na lavanderia dum hotel?
  -- Eu no acho estranho.
  -- Ele tinha alguma fama como lutador, eu o vi sempre na televiso.
  -- Pode ter se cansado.
  -- O senhor no acha que ele s trocaria as lutas por algo mais rendoso?
  -- Isso nem sempre  possvel.
  -- Doutor, outro dia assaltaram meu apartamento na Bela Vista. Tenho a impresso de que estavam  procura de Leonardo, pois nada foi roubado.
  -- O seu amiguinho se sente ameaado? -- perguntou o delegado com um sorriso irnico.
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  -- Receio que sim.
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  -- Ento, ele que nos procure. Conosco estar mais seguro. Bom dia!
  Guima ia saindo mas fez mais outra pergunta:
  -- O senhor sabe como seu Oto enriqueceu?
  -- Sei, sim. Foi um grande corretor de imveis no passado e ainda negocia -- respondeu o delegado como se a pergunta fosse absurda.
  Guima no disse mais nada e retirou-se. Estava deprimido e no imaginava como Leo escaparia daquela enrascada.

No estranho hotel Acapulco

  Ciente da ida de Guima e de Hans  delegacia, Leo caiu em desnimo e j nem conseguia jogar xadrez com o primo. s vezes o porteiro do Park aparecia, sem novidades. Recebia tambm cautelosas visitas dos pais e do nono. Dona Iolanda, amargurada, chegava a preferir que o filho se entregasse ao delegado a viver escondido, opinio que Rafa e o velho Pascoal rebatiam.
  Numa tarde, em que Leo inventava pretextos para sair  rua, saiu-se com esta:
  -- Gino, vou dar um pulo no hotel onde Ramon Vargas estava hospedado quando morreu.
  -- Lembra-se do nome do hotel?
  -- Lembro,  um estabelecimento de terceira, na Vitria.
  -- Qual  a idia?
  -- Levantar alguma ligao entre Ramon e Hans. Se pertenciam  mesma quadrilha  possvel que Hans o visitasse.
  -- A polcia deve ter estado por l.
  -- Claro que sim, mas ela no estabelece nenhum elo entre Ramon e o Alemo.
  --  uma idia perigosa mas parece que gosta delas. Pena que no pode ir de cadeira de rodas. Mas v ao menos de culos escuros.
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  Leo foi ao hotel de txi. Chamava-se Acapulco e  entrada havia muitos vasos com folhagens. Alguns hspedes estavam sentados numa espcie de sala de espera, uns de bermudas, outros de cales baratos. Devia ser um hotel-residncia para a maioria dos hspedes que se movimentava muito  vontade. Viu um corredor de cimento ladeado de portas verdes pelo qual circulava um homem vestido de branco, embriagado. Tanto da sala quanto do corredor, ouviu palavras em castelhano, que parecia ser o idioma oficial do hotel.
  Leo aproximou-se da portaria onde um homem de meia-idade, sentado, ouvia num rdio de pilha uma partida de futebol.
  -- Boa tarde! -- cumprimentou.
  -- No temos vaga -- respondeu sem tirar o rdio do ouvido.
  -- Queria uma informao -- disse Leo. -- Aqui que morava Ramon Vargas?
  O homem ouviu o nome de Ramon, hesitou e respondeu:
  -- Era.
  -- Ele no deixou algum pacote para Hans Franz Mller?
  -- Quem  voc? -- perguntou o porteiro, inquieto.
  -- Foi Hans que me mandou. O senhor o conhece, no?
  O homem fez sinal com a mo para outro que estava na sala de espera. Este, de bermudas, moreno escuro, arrastando chinelas, aproximou-se.
  -- Esse rapaz veio mandado por Hans. Quer um pacote que pertencia a Ramon.
  O novo personagem, que devia ser dono do Acapulco, olhou Leo dos ps  cabea.
  -- Que pacote?
  -- No sei.
  -- Hans sabe que Ramon no deixou pacote algum. O que ele tinha a polcia levou.
  -- Mas ele disse que o pacote est aqui no hotel -- insistiu Leo.
<P>
  -- Esta semana ele apareceu e no pediu pacote algum -- disse o homem de bermudas, irritado. -- Alis, Hans sabe que no transo mais com os negcios deles.
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  -- Est certo -- disse Leo. -- Mas o que quero  que ele saiba que estive aqui, seno  capaz at de me matar. O senhor deve saber como ele . Vou deixar meu nome -- acrescentou, pegando uma esferogrfica sobre o balco. E escreveu: Leonardo Fantini. -- Vou pr tambm o telefone do Emperor Park Hotel. Por favor, ligue para ele e diga que estive aqui. O Alemo pode pensar que fugi com o pacote. Est desesperado  procura dele.
  -- Vou ligar, sim -- disse o proprietrio do Acapulco. -- E aproveitarei para lhe pedir que no me envolva mais nos seus... pacotes.
  -- Obrigado, senhor. Eu no quero aparecer um dia boiando no Rio Tiet.
  Enquanto o homem de bermudas e o porteiro se entreolhavam, Leo voltou as costas e ganhou a rua. Um minuto depois apanhava um 
 txi.
  -- Puxa! Sensacional! -- exclamou Gino, quase batendo palmas. -- Voc conseguiu provar que Hans e Ramon se conheciam.
  -- Consegui, mas no tenha muitas iluses. Hans vai pedir ao dono do Acapulco para que negue esse relacionamento.
  -- Isso se o dono do hotel estiver disposto a ajud-lo.
  -- Pode ser que no esteja -- disse Leo. -- De qualquer forma vou escrever ao doutor Arruda informando que Hans e Ramon Vargas se conheciam. E vou fazer isto j.
  -- Tem uma caixa postal a na esquina.
  -- No, vou pedir  tia Zula para levar a carta a meu pai com um recado para que ele a deixe ainda hoje  noite na delegacia. 
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Temos que agir antes que Hans aja.
  -- Mais um xeque ao Baro.
   noite, quando tia Zula chegou da cantina, Leo deu-lhe a carta e o recado, lacnico e urgente: "Papai, deixe esta carta na delegacia hoje mesmo".
  Mais animado, Leo at convidou o primo para uma partida de xa-
 drez. Sabia que o doutor Arruda, embora no acreditasse nele, tomaria alguma providncia. Imediatamente iria ao Acapulco e talvez seu proprietrio ou o porteiro acusassem Hans. Mesmo se o 
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Alemo pedisse ou suplicasse para no abrirem o bico. Era uma nova esperana.
  A noite passou lentamente como tambm a manh do dia seguinte. L pelo meio-dia tocaram a campa-
 inha. Gino foi atender. Era Rafa, o pai de Leo, com uma cara estranha. 
  -- Pai! -- exclamou o rapaz. -- No levou a carta ao delegado? 
  -- Levei -- respondeu Rafa. -- E levei pessoalmente.
  -- No devia ter feito isso, velho.
  -- Calma, no disse ao doutor Arruda onde voc est.
  -- E o que aconteceu, pai?
  -- Doutor Arruda leu a carta e, como j era tarde, me pediu que voltasse hoje bem cedo. E eu s nove horas j estava l. Ento eu, o delegado e um detetive chamado Lima, fomos ao tal hotel Acapulco, na Rua Vitria. "Vamos ver se desta vez seu filho est falando a verdade", ele disse. Ao chegarmos, ele mandou chamar o proprietrio, um tal de Ramirez:
  "-- Ontem esteve aqui um rapaz chamado Leonardo Fantini? -- perguntou o delegado.
  -- Esteve, sim.
  -- O que veio fazer?
  -- Perguntou se esteve hospedado aqui Ramon Vargas, o tal que foi encontrado morto no rio.
  -- E o que mais ele quis saber?
<P>
  -- Se Ramon recebia visita dum tal Hans.
  -- O senhor conhece esse Hans? Hans Franz Mller?
  -- No, senhor.
  -- O apelido dele  Alemo.
  -- Eu disse ao rapaz que no conheci nenhum Hans. No lembro de nenhuma pessoa com esse nome ter procurado Ramon.
  -- Quero falar com seu porteiro.
  O porteiro estava nas proximidades.
  -- O rapaz tambm me fez a mesma pergunta -- disse ele. -- No conheci nenhum Hans por aqui".
  -- Imagine a cara que eu fiquei! -- exclamou Rafa.
  -- Papai, eles mentiram!
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  -- Certamente receberam dinheiro de Hans -- bradou Gino.
  -- Mas o delegado acreditou neles -- declarou Rafa.
  -- E disse que voc est sofrendo das faculdades mentais, meu filho. E que por isso mesmo ser tratado com cuidados especiais quando se apresentar.
  Leo baixou a cabea, irritado.
  -- Eles foram subornados.
  -- Voc no pode lutar sozinho contra uma quadrilha, Leo. Comeo a concordar com sua me. Talvez o certo seja mesmo comparecer  delegacia. Arranjo um advogado.
  -- A polcia continuar no acreditando em mim -- disse Leo. -- E ser uma vitria para o Baro. Agora pode ir, pai. Obrigado. Rafa apertou a mo do filho.
  -- Voc est fazendo falta na feira.
  Quando Rafa saiu Leo comeou a dar murros no ar.
  -- Viu o que houve, Gino?
  -- O Baro foi ligeiro. Deve ter dado dinheiro para Hans subornar os dois.
  -- O homem  muito esperto.
  -- No desanime, primo. Ele levou outro xeque. Conseguiu escapar com o rei, mas um xeque sempre assusta.
<P>
  -- Ele j deve saber que no vou desistir.
  -- E no vai mesmo? -- perguntou Gino com uma crescente admirao pelo primo.
  Leo respondeu imediatamente:
  -- NO! S PARO SE ME MATAREM.
  Gino tocou no tabuleiro de xadrez.
  -- Vamos ensaiar um novo xeque?

A notcia que no saiu publicada

   noite Guima apareceu na casa de tia Zula. Ao saber da ida de Leo ao Hotel Acapulco, e de suas conseqncias, disse:
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  -- Ento foi por isso que o Baro estava to nervoso.
  -- Conte isso -- pediu Leo, entusiasmado.
  -- Ontem  tarde vi o Baro sair correndo do hotel com um talo de cheques na mo. quela hora os bancos j esto fechados e de fato logo depois voltava ainda mais irritado. Certamente no conseguiu descontar o cheque. Ento parece que teve uma idia e foi  Casa de Cmbio do Park onde trocou dlares por cruzeiros. A tornou a sair, sempre apressado, suando e resfolegando como um cachorro sedento. Sem pedir licena a ningum, fui  lavanderia, Hans no estava l. Soube que tinha sado.
  -- Certamente foi encontrar o Baro -- disse Leo.
  -- Sem a menor dvida -- concordou Guima.
  -- O rei dele balanou -- comentou Gino em sua linguagem enxadrstica.
  -- Ele demorou muito? -- perguntou Leo.
  -- Menos de uma hora -- respondeu Guima. -- Antes de subir para o 222 passou pela telefonista. Estava esperando um chamado importante.
  -- Com toda a certeza de Hans.
  --  o que suponho, Leo.
<P>
  -- Mais um empurrozinho talvez o rei caia -- disse Gino, movimentando a cadeira de rodas, como sempre fazia,  procura de espao, quando se sentia feliz.
  Algum tempo depois tia Zula voltava com uma pizza *mezza* 
 aliche *mezza* mussarela, muito cheirosa, como se adivinhasse que havia visita. Foi buscar uma garrafa de vinho de sua pequena adega e teve incio uma ceia maravilhosa. Falou-se, como no podia deixar de ser, no Baro e em Hans, e para surpresa do grupo, a pequena Zula era de opinio que Leo devia continuar a luta, muito satisfeita com o apoio que Gino lhe estava dando. Foi nesse ambiente descontrado, de boca cheia e um pouco de vinho, bem  maneira da Bela Vista, que surgiu outra idia para perturbar a vida do Baro.
  Aquela noite, assim que saiu da casa de tia Zula, Guima levou uma carta de Leonardo Fantini a um jornal vespertino, especializado 
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em noticirio policial, na qual se referia ao possvel relacionamento entre o proprietrio do Hotel Acapulco, senhor Ramirez, com pessoas que teriam assassinado Ramon Vargas. A carta falava em suborno praticado por figuro da sociedade mas no mencionava os nomes do Baro e de Hans. Dessa forma, Leo pretendia interessar a imprensa no caso, o que talvez causasse uma fuga suspeita de Ramirez e do porteiro do seu hoteleco.
  Guima, porm, no subiu at a redao para entregar a carta. Deixou-a na portaria, endereada ao redator-chefe, e afastou-se bem depressa em seu Fusca. Sabia que tinha entregue uma bomba, mas ignorava se ela explodiria ou no.
  O dia seguinte foi duma espera nervosa para todos; Leo e Gino em casa, Zula na cantina, Guima no hotel e Rafa na oficina. s trs da tarde, Gino em sua cadeira foi  esquina comprar o jornal. Mas todos, cada um em seu ambiente, sofreu sua decepo. O jornal no publicou a carta de Leonardo Fantini.
  -- Por que ser? -- perguntou Leo.
  -- Acho que o jornal mandou a carta  polcia para saber se havia naquilo alguma verdade.
  -- E disseram que sou um mentiroso.
  Gino sabia sorrir duma forma que o animava.
  -- O jornal no publicou hoje mas pode publicar amanh.
  -- O que queria saber -- disse Leo --  se o Baro e Hans tiveram notcia da carta.
  -- A seria outro xeque.
  -- Acha possvel que eles ficaram sabendo?
  -- Bem, pode ser que algum reprter primeiro foi ao Acapulco e depois  polcia. Nesse caso, o dono do hotel se comunicaria imediatamente com Hans.
  Leo deu um soco na mesa:
  -- Pagaria para saber isso.
  -- O senhor vai saber -- garantiu Gino com um caricato sotaque alemo.
  -- Ah, voc alm de tudo  imitador?
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  -- Imito alemo, japons, pssaros, trens e edifcios pegando fogo. Tem o telefone do Acapulco a?
  -- Tenho.
  -- Vou telefonar para Ramirez.
  Novamente Gino, o eltrico, saiu em sua cadeira, empolgado pela aventura que estava vivendo. Pela janela, Leo viu-o deslizar em seu veculo veloz como se numa pista de gelo. Se no houvesse escadas e desnveis, a cidade toda com rampas, nas ruas e edifcios, ele, mesmo paraltico, seria mais rpido que qualquer pessoa.
  Dez minutos depois, Gino voltava.
  -- Falei com Ramirez.
  -- Conte, primo.
  -- Acho que foi o cara da portaria que atendeu:
  "-- Quero falar com o Ramirez, diga que  o Hans" -- disse. Parece que vi o susto que o sujeitinho levou. Mas Ramirez logo atendeu.
  "-- O que voc quer desta vez, Hans? Primeiro vem a polcia, depois dois reprteres. Quando vamos parar com isso?
  -- No se queixe, voc foi bem pago.
  -- Aconteceu alguma coisa?
  -- Quero saber como voc se portou com o pessoal do jornal?
  -- Acho que bem. S sei que no saiu nada publicado.
  -- Era s isso. Boa tarde, Ramirez.
  -- Veja se me esquece. No quero ter complicaes com a polcia por sua causa."
  A Gino (Hans) desligou e voltou para casa.
  -- Ento houve mesmo suborno -- disse Leo.
  -- E a notcia no saiu no jornal porque os reprteres passaram antes pela polcia. Deve ser norma nesses casos. E a polcia informou que h um garoto fazendo brincadeiras nessa histria do Ramon Vargas.
  -- Foi isso -- admitiu inteiramente Leo, abatido.
  -- Mas no faa essa cara, primo. A inteno era dar mais um xeque no Baro e em Hans. E voc conseguiu.
  -- Ns conseguimos. Pena que no gravamos a conversa telefnica.
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  -- J ouvi dizer que gravao no pe ningum na cadeia.  prova que se pode forjar.
  -- Tambm ouvi dizer isso -- concordou Leo.
  -- Vamos jogar xadrez.  um jogo que inspira a gente. Obriga os miolos a funcionar.
  --  uma pena que no teremos a imprensa do nosso lado.
  -- Jornalistas descobrindo crimes de mortes e combatendo quadrilhas perigosas s no cinema -- 
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lamentou Gino dispondo as pedras no tabuleiro.
  Ao anoitecer Rafa apareceu na casa de tia Zula.
  -- No deu certo o plano -- disse-lhe o filho.
  -- Talvez tenha dado.
  -- Por que diz isso, pai?
  -- Apareceu uma reprter em casa.
  -- O que ela queria? -- admirou-se Leo, trocando olhares entusiasmados com Gino.
  -- Ter um encontro com voc.
  -- Mas o senhor no disse onde estou.
  -- Ela foi discreta, nem quis saber.
  -- Conte, papai, como foi tudo. Lembre-se bem das palavras. So importantes.
  -- Isso faz menos de uma hora. Eu tinha lido o jornal e estava aborrecido por no ter sado nenhuma notcia. Ento tocaram a campainha e fui atender. Estava na porta uma moa loura e bem vestida.
  "-- Posso falar um minuto com o senhor?  sobre Leonardo."
  -- Fiz com que entrasse na sala.
  "-- Bem, pode falar.
  -- Sou do jornal e li a carta que ele mandou.
  -- Por que no tomaram conhecimento da carta?
  -- Um doutor Arruda disse que seu filho no passa dum doente mental. E o jornal no pode se arriscar envolvendo pessoas e estabelecimentos baseado numa simples carta. Entende?
  -- Entendo.
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  -- Mas eu acreditei no seu filho. Sou especializada em reportagens sobre contrabando e trfico de drogas. E aqui estou.
  -- Quer falar com Leo?
  -- Quero.
  -- No direi onde ele est.
  -- E nem quero saber: guarde segredo. Prefiro ter um encontro com ele bem longe.
  -- Onde devo lev-lo?
  --  melhor ele ir s. Esse negcio  perigoso para mim tambm. Leo pode ser preso e eu perder o emprego.
  -- Quando seria o encontro?
  -- Amanh. Digamos s oito.
  -- Onde?
  -- Diante do jornal onde trabalho, na Alameda Baro de Limeira. Eu passo num carro.
  -- Que marca  o carro?
  -- Provavelmente um Fusca. Isso no  importante. Eu o descubro se ele estiver na porta nesse horrio. O senhor d o recado?
  -- Darei, mas no garanto que ele v.
  -- Espero que v. Ser bom para ele."
  -- Foi tudo -- disse Rafa.
  -- Como  o nome dela? -- perguntou Gino.
  -- Diabo! Me esqueci de perguntar.
  -- No faz mal, pai.
  -- Voc vai?
  Leo lanou um olhar longo para Gino.
  -- Vamos pensar -- disse o primo.
  -- Obrigado, pai, pelo recado. Eu e Gino estudaremos o caso. No se preocupe.
  Quando Rafa saiu, Leo e Gino, como se tivessem combinado, controlaram o entusiasmo.
  -- O que diz, primo?
  -- Parece que  o que estvamos querendo, no? O apoio da imprensa. Estvamos sozinhos demais nessa luta.
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  -- Quem sabe desta vez seja xeque-mate?
  -- Vamos ver. Mas foi uma pena o tio no ter perguntado o nome da moa.  sempre prudente saber com quem se anda.

A jovem loura do corcel marrom

  Leo levantou cedo e enquanto tomava caf o primo Gino espiava  janela. Caminho livre: podia ir. Tomou um txi na esquina e rumou para a Alameda Baro de Limeira. Diante do jornal desceu,  espera da moa. Poucas vezes sara de casa naquelas semanas o que o fazia sentir-se como se convalescesse de alguma doena. Mas, apesar da indisposio fsica, estava alegre com a conquista dum aliado talvez poderoso.
  Ouviu uma buzina e viu um velho Corcel marrom, parado, com uma jovem loura, bem vestida, ao volante. Ela no viera de Fusca, mudana que devia fazer parte de suas precaues.
  -- Voc  o Leonardo? -- perguntou a jornalista, sorridente.
  -- Sou.
  -- Eu sou Vivian -- disse a moa. -- Entre.
  Leo notou algum sotaque estrangeiro em sua voz. Assim que se sentou ao seu lado, como Vivian agia com muita naturalidade, fez uma pergunta espontnea.
  -- Voc  argentina?
  -- J morei na Argentina mas sou brasileira.
  -- Onde estamos indo? -- perguntou.
  -- Vou lev-lo a pessoas que podero ajudar voc. Mas antes quero saber de tudo. No sou da polcia, para mim no precisa esconder nada.
  -- No tenho nada a esconder.
  -- *Bueno*.
  -- O que voc quer saber?
  -- Disse voc que *hay una persona* da sociedade metida nesse caso mas no revelou *lo nombre*.
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  -- No quis fazer acusaes por escrito sem provas. Mas espero obt-las, se voc me ajudar.
  -- Conte comigo, *muchacho*. Mas quem  o homem?
  -- Para voc direi porque j disse inclusive  polcia. O nome  Oto Barcelos, apelidado o Baro, e  hspede-residente do Emperor Park Hotel, onde eu trabalhava.
  -- O que ele fez?
  -- Matou um traficante boliviano chamado Ramon Vargas em seu apartamento.
  -- A polcia pediu para o jornal no publicar nada porque voc  um mentiroso. Como sabe que o Baro matou o tal de Vargas?
  -- Porque vi Ramon debaixo de sua cama. E ele, o Baro, estava com uma mancha de sangue no robe. No dia seguinte encontrei o corpo do boliviano num carrinho para transporte de roupa na lavanderia do hotel. Mas no pude fazer nada porque Hans me atacou pelas costas e quando acordei o cadver no estava mais l.
  -- Quem  Hans? -- perguntou a moa dirigindo quase sem olhar para Leo e aproveitando bem todos os espaos livres do trnsito.
  -- Um ex-lutador da lavanderia do Park e que est a servio do Baro.
  -- Quer dizer que a polcia no acredita em voc.
  -- No, porque o Baro  homem rico e caridoso. Todos o admiram.
  -- Sabe qual  o negcio desse homem?
  -- Contrabando, suponho.
  -- Contrabando de qu?
  -- No sei.
  -- Pode ter matado um homem sem ser contrabandista.
  -- Se contratou Hans e o levou para o hotel  porque faz alguma coisa escusa.  provvel que tenha outros comandados. Talvez Ramon Vargas fosse um deles, j que transava com Hans. Para mim  o chefe duma quadrilha.
  --  possvel -- disse Vivian, aereamente.
  -- Qual  seu interesse nisso? -- perguntou Leo, com mais calma, examinando bem a moa.
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  -- Sou jornalista.
  -- Voc disse que vai me levar a pessoas que podem me ajudar. Que pessoas?
  Vivian no respondeu logo, ocupada em pr um cigarro  boca e puxar o acendedor do carro.
  -- Amigos meus.
  -- Mas por que querem me ajudar?
  -- Esto na pista duma grande quadrilha de contrabandistas. Pode ser que a histria deles tenha alguma ligao com a sua. O chefe dessa quadrilha, acreditam que seja um homem muito importante.
  -- O Baro?
  -- Pode ser que sim.
  Leo lembrou-se de Gino que sempre fazia mais uma pergunta mesmo quando o tema j parecia esgotado.
  -- Por que eles querem acabar com essa quadrilha?
  -- Por qu?
  -- Eu no estaria preocupado com contrabandistas se eles no estivessem nos meus calcanhares.
  A moa sorriu como para ganhar tempo.
  -- Bem, um deles perdeu o emprego no jornal s porque se meteu nesse assunto.
  -- E os outros?
  -- Os outros so apenas conhecidos que querem colaborar.
  Vendo que o carro voava num *free-way*, Leo perguntou:
  -- Para onde estamos indo?
  -- Para a represa -- disse Vivian. -- O encontro vai ser l. Leo fez outras perguntas que ela respondia com meias palavras como se dando a entender que era um mero elo de ligao naquilo tudo e que talvez tivesse pressa de voltar ao jornal. Diante dessa apatia, preencheu o tempo olhando dum lado e outro da avenida, um pouco tenso por causa da velocidade quase perigosa que a moa imprimia ao veculo. At um sinal vermelho ela ultrapassou com risco de atropelar um transeunte idoso. Essa pressa indicava que seus amigos estavam ansiosos por trocar informaes com que 
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talvez se decepcionassem. Afinal tudo que tinha a dizer j dissera para ela. 
  Ao chegar  represa, Leo pde admirar a bela manh de sol e lembrou-se dos piqueniques que j fizera l, onde aprendera a nadar quando ainda no curso primrio. Mas os momentos de contemplao 
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foram curtos porque Vivian logo estacionou o carro.
  -- Vamos sair.
  Leo desceu mas naquele trecho deserto da represa no viu ningum.
  -- Seus amigos ainda no vieram.
  -- Ns vamos ao encontro deles.
  Mal Vivian deu essa explicao, um pequeno e velho iate aproximou-se da margem da represa. Um homem, a bordo, sem camisa, com uma Coca-Cola na mo esquerda, fez um largo aceno para a moa.
  --  o iate -- disse ela.
  -- Vamos de iate?
  -- Sim.
  -- A conversa vai ser a dentro?
  -- No, o encontro  do outro lado da represa.
  Leo foi acompanhando Vivian na direo do iate, percebendo que alguma coisa brilhava ao sol  cintura do homem sem camisa: um revlver.

Pnico na represa

  Alm dele e de Vivian, s estavam no iate o piloto, que Leo no via, e o homem do revlver, que s fez um movimento de cabea em sua direo quando ele pisou a bordo.
  -- Ele no sabe quem eu sou? -- perguntou Leo ao  se sentarem num banco, sob o vento forte e quente que soprava.
  -- Esto apenas emprestando o iate.
  -- Eles nada tm a ver com a histria?
  -- Nada.
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  J com o iate em movimento Leo lanou um olhar panormico para a represa, que s tinha grande trnsito de barcos de todas as espcies nos fins de semana. Nenhum iate como aquele navegava. Viu apenas alguns windsurfistas solitrios e uma frgil catraia costeando a margem oposta, enquanto 
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ouvia o rudo desigual e acidentado do motor.
  -- Por que o iate -- perguntou Leo -- se podamos fazer a volta de carro pela represa?
  -- Meus amigos acharam perigoso estacionar o carro  porta da casa deles. Devemos nos preocupar com a segurana de todos.
  -- Eles esto sendo perseguidos pela quadrilha?
  -- Creio que esto, j que tomam tantos cuidados.
  Ainda no iate Vivian persistia no desejo de falar pouco.  impiedosa luz solar sua maquilagem se liquefazia e ficava parecendo mais velha, e talvez por isso a impacientasse a lerdeza do iate com seu motor gago.
  O homem de busto nu, j sem o revlver  cintura, apareceu com duas Coca-Colas abertas.
  -- Quer uma, Malena?
  Chamada por outro nome, Vivian olhou com ar de censura para o homem, que ao entregar os refrigerantes afastou-se depressa.
  Leo comeou a beber pelo gargalo, tendo estranhado mais a reao de Vivian do que o nome pelo qual fora chamada. Ela esvaziou a garrafa com muita sede e jogou-a num canto do barco. Parecia evitar troca de olhares com Leo. Depois, no mesmo lance nervoso, tirou um cigarro de sua pequena bolsa e um isqueiro. No era um desses isqueiros comuns, a gs, que hoje se vendem aos milhes, mas uma bela pea de ouro e prata, provavelmente estrangeiro, muito bonito e valioso. Leo no conseguiu beber mais. Quase nem podia respirar. O isqueiro de Vivian era exatamente igual ao que fora encontrado em seu bolso e que devia pertencer a Hans. Fixando sua ateno no isqueiro, Leo percebeu que sua tnue chama tremia, no por causa do vento. A mo que o acionara, descontrolada, tinha sido atingida por uma corrente eltrica.
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  -- Gostou do meu isqueiro? -- Vivian (ou Malena) perguntou lembrando, insegura, de algum detalhe esquecido de sua representao.
  -- Quem lhe deu? -- perguntou Leo. -- O Baro?  com isqueiros que ele gratifica seus amigos.
  -- Do que est falando?
  -- Voc  da quadrilha do Baro?
  A moa levantou-se, toda trmula. Devia ser novata na profisso.
  -- No conheo nenhum Baro.
  -- O que vo fazer comigo? -- perguntou Leo no em voz alta para no atrair o homem sem camisa, que estava embaixo com o piloto ou deitado numa das cabines. -- Vo me matar?
  A moa, agora muito mais Malena que Vivian, com toda sua maquilagem levada numa torrente de suor, sem nada dizer foi se dirigindo  parte inferior do iate.
  Leo, muito rpido, a deteve, segurando-a pelos braos.
  -- Me largue! -- ela protestou.
  -- Vocs vo me matar? -- ele tornou a perguntar, com muito medo mas sem erguer a voz.
  -- Ningum est pensando nisso.
  -- O que vo fazer comigo?
  -- Voc vai ficar detido numa casa aqui da represa at que a gente receba um carregamento.
  -- Vocs so contrabandistas?
  -- Somos, mas no assassinos.
  -- Mataram Ramon.
  -- Ele quis fazer chantagem. Mas com voc no acontecer nada. Ficar apenas alguns dias numa casa. Depois que o carregamento chegar, ser solto. No tenha medo.
  Leo no se sentiu nem um pouco confortado com as explicaes de Malena. Talvez no o matassem imediatamente, mas o matariam um dia, pois no acreditava que aps a chegada do tal carregamento o Baro abandonasse seu rendoso negcio. Raciocinando assim, o rapaz continuava a deter a falsa jornalista pelo brao, ganhando tempo para tomar uma deciso.
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  -- Est me machucando.
  -- E se eu lhe disser que um amigo meu, que estava escondido perto do jornal, tomou nota da placa de seu carro?
  -- Isso no faz diferena. Foi roubado. A esta altura est sendo abandonado em algum lugar.
  Pelo tom de voz e facilidade da resposta deveria ser verdade.
  -- Este barco  do bando? -- perguntou Leo.
  -- Nem o barco nem a casa para onde estamos indo. No cometemos erros, menino. Por isso  bom ficar bem quietinho. Voc vai apenas descansar uns dias.
  Malena forou o brao para libertar-se mas Leo ainda a segurava com fora. Olhou para a cabine do piloto, fechada, onde o homem sem camisa poderia aparecer a qualquer momento e talvez j com o revlver.
  Tomando afinal uma resoluo, Leo tapou a boca da moa com a mo espalmada.
  -- Voc sabe nadar? -- perguntou.
  Apesar da mordaa a moa emitia sons, que, embora abafados, significavam que no sabia. Comeou ento a travar uma luta corpo a corpo com Leo, sob o sol cada vez mais quente daquela magnfica manh.
  Leo sentiu que o lance era seu: juntando todas as foras e ainda amordaando Malena com a mo, jogou-a nas guas da represa enquanto saltava pelo outro lado do iate. E nadou na direo da margem, ouvindo os gritos da contrabandista com todo o desespero de quem no sabia realmente dar uma braada.
  O homem sem camisa saiu da cabine e s pde ver j a alguma distncia os braos de sua colega de crime movendo-se como as asas de um moinho, enquanto clamava por socorro. Imediatamente, como Leo previra, ele teve que dar ordens urgentes ao piloto para que fizesse a curva, ignorando at ento o destino do rapaz.
  Sem tornar a olhar para o iate, Leo continuou a nadar para a margem oposta da represa da qual no estava muito distante. Era um esforo disciplinado, feito para render, durante o qual conservava 
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quase sempre a cabea sob as guas. Sua experincia lembrava-o de que o sol com seus reflexos, principalmente numa superfcie lisa, geralmente cria alvos enganosos e pode confundir muito um atirador. Calculou que naquele momento Malena j estava sendo retirada das guas e que ia comear a sua perseguio. Arriscou olhar mais uma vez, num relance, o iate.
  Seu clculo confirmava-se. Malena j estava a bordo e o homem sem camisa corria para a cabine, com certeza para apanhar o revlver e dar novas ordens ao piloto. Eram outros segundos que Leo ainda levaria de vantagem. Felizmente um windsurfista vinha vindo, o que no permitia que atirassem do iate. Leo nadou por baixo da prancha j no muito longe da margem. Com braadas em ritmo de competio viu a vegetao aproximar-se. Foi quando ouviu os dois primeiros disparos. Imediatamente segurou a respirao e afundou o mais que pde tentando no perder a velocidade. Sabia que o perigo maior aconteceria quando sasse da represa pois o iate estaria mais perto.
  Pior que os estampidos foi ouvir o gaguejante motor do iate. No imaginava que ele o alcanasse to depressa. Se, na precipitao, saltasse para terra firme, em terreno desconhecido, talvez fosse alcanado ou alvejado. Tomando uma deciso sbita e ousada, passou a nadar por baixo da gua em sentido contrrio, certo de que no seria visto.
  Em poucas braadas bateu com as mos no casco do barco e contornando-o pde encher novamente os pulmes de ar. Tornou a afundar, refugiando-se debaixo do iate, tentando manter a calma para no perder o controle da respirao. Quando voltou  superfcie, para uma respirada, ouviu vozes.
  -- Onde ele foi? -- a voz de Malena.
  -- Voc viu ele sair da gua? -- voz de homem.
  -- Estou ainda tonta, no vi nada.
  -- Ser que o acertei?
  -- No sei.
  -- Vamos dar uma olhada na margem.
  -- E eu? -- era outra voz de homem, decerto a do piloto.
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  -- Voc vai costeando lentamente a margem.
  Leo no viu mas ouviu os passos de Malena e do homem sem camisa deixando o bote. Em seguida, o motor era acionado novamente e o pequeno iate costeava a margem. Leo acompanhou-o, nadando sem rudo, colado ao casco, do lado oposto  praia. Estava exausto mas no seria por cansao que o apanhariam. Temia, sim, um erro de clculo e o desconhecimento do que havia daquele lado da represa. Arriscando um pouco, nadou por baixo do barco, e atingiu a margem.
  Molhado e trmulo, de medo e frio, viu-se logo entre algumas rvores. Podia ser reconhecido pelo piloto do iate, e por Malena e seu companheiro que estavam  sua procura. Escondeu-se dentro dum enorme cano de cimento, porm no se demorou a. Sabia que se andasse em linha reta encontraria uma estrada estreita que dava para a avenida. Foi o que fez, de cabea baixa, e o mais ligeiro e silencioso que pde.
  L estava a estrada, mas se caminhasse por ela ficaria muito exposto. Seguiu por uma vegetao baixa, com o corpo curvado e olhando para todos os lados. Num desses lances viu que o iate ia longe. J livrara-se dos olhos do piloto mas a ex-Vivian e o homem sem camisa ainda representavam perigo.
  Sem parar um s momento, paralelo  estrada, com o corpo dobrado, em postura de orangotango, Leo respirava fundo, to preocupado com o ar dos pulmes como quando estivera sob as guas. Precisava revitalizar-se caso surgisse a iminncia duma correria. Mas no queimava mais energia do que a necessria. Uma fuga sem rumo, nervosa, impulsionada apenas pelo pavor, poderia lev-lo aos braos dos perseguidores.
  Uma carroa. Leo viu uma carroa, com uma carga de capim, vindo lentamente pela estrada. No poderia haver melhor esconderijo ambulante. Esperou o ruidoso veculo passar, correu e saltou sobre sua carroceria. Respirar sob o capim era menos aflitivo do que segurar a respirao sob a gua, e alm do mais podia descansar os msculos.
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  Minutos depois, a carroa parava e ouviu uma voz masculina j conhecida.
  -- O senhor viu um rapaz por aqui? Est todo molhado.  um assaltante.
  -- No vi -- respondeu o carroceiro.
  -- Obrigado.
  A carroa voltou a movimentar-se mas somente alguns minutos depois  que Leo se sentiria seguro. Tirou a cabea do capim e ento respirou como a natureza manda. Pela primeira vez sentiu a umidade das roupas e do sapato. Enfiou a mo no bolso: molhadinhas, mas inteiras, retirou algumas cdulas.
  Agora, nas proximidades da avenida, poderia apanhar um txi. Mas para onde iria? Esse era o novo problema. Deitado na carroa, olhava para o repousante cu azul, repetindo a pergunta que no sabia responder:
  -- Para onde? Para onde?

Para onde?

  Foi tambm a pergunta que fez a Leo o motorista do txi, que no percebeu o estado de suas roupas. No respondeu logo, mas pensou depressa. Em sua casa no poderia ir porque tanto a polcia quanto os homens do Baro sabiam onde os Fantini moravam. O apartamento de Guima j fora visitado provavelmente pelos contrabandistas. E no queria voltar a seu ltimo endereo pensando na segurana de Gino e de tia Zula.
  -- V para a Bela Vista -- ordenou ao motorista.
  Quando o txi passou pelo Morro dos Ingleses, Leo teve uma idia, mandou o carro parar, pagou e olhou para o edifcio onde ngela morava. Mesmo se ela e os pais estivessem viajando, pediria  empregada que lhe levasse um recado. Ela j o vira diversas vezes conversar com ngela na porta e na esquina e talvez fizesse a gentileza.
  O porteiro do prdio, sem tirar os olhos de suas roupas ainda 
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molhadas e amassadas, e estranhando seu aspecto geral, acompanhou-o at a porta do apartamento de ngela.
  A prpria ngela atendeu  campainha.
  -- Leo! -- ela exclamou, surpresa porque ele nunca fora a seu apartamento e ainda mais porque nunca o vira com to m figura.
  -- Ele pode entrar -- disse ao porteiro.
  Ao pisar o elegante *living* do apartamento, Leo ficou acanhado.
  -- Acho que seus pais no vo gostar.
  -- Esto viajando, voltam na segunda. No fui com eles porque ainda tenho exames.
  -- Nada podia ser melhor para mim.
  -- Por que est assim?
  -- Posso sentar?
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  -- Est molhado! Tire a blusa! Voc precisa dum caf bem quente. Vou pedir para a Rita fazer um.
  Enquanto ngela ia  cozinha, Leo arrancava a blusa e jogava-a sobre um pufe. Agora, sim, podia descansar. Sentou-se numa poltrona e pela primeira vez naquela manh sentiu dores musculares. Mas estar ali, no apartamento da quase-namorada, com os pais dela viajando, era a primeira compensao e intervalo depois de tantos dias e noites de tenso.
  ngela voltou:
  -- O caf j vem vindo. Mas como voc est esquisito! O que foi que aconteceu?
  -- Lembra que lhe disse que houve um crime no hotel?
  -- Lembro.
  -- Pois ento sente-se e oua tudo.  uma histria comprida.
  Depois do caf, Leo teve sede e aceitou um copo de laranjada. E um pouco de gelia. Enquanto bebia e comia ia contando todos os episdios da aventura que tivera incio no 222 do Emperor Park Hotel. Contou inclusive que a viu passar quando fora telefonar disfarado e sentado na cadeira de rodas. ngela lembrou-se de ter visto um paraltico naquela manh, muito impressionada com a histria de Leo e seus terrveis detalhes.
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  -- E agora, o que vai fazer? -- perguntou no fim.
  -- Queria escrever uma carta para meu pai. Aposto que j foi  casa de tia Zula e deve estar estranhando minha demora.
  -- Rita pode levar a carta.
  -- Era o que ia pedir.
  Recebendo papel, esferogrfica e envelope, Leo escreveu uma longa carta a seu pai contando tudo que acontecera desde o encontro com a falsa jornalista. Dizia que podia levar a carta ao doutor Arruda. Quem sabe, desta vez, o delegado acreditasse nele. Pedia-
 -lhe tambm que fosse at a casa da tia para que Gino se tranqilizasse. E para finalizar, em papel separado, que o pai devia destruir, contou que estava no apartamento de ngela de onde talvez se transferisse para o stio prometido por Guima como refgio.
  -- Agora voc precisa descansar -- ordenou ngela. -- V deitar na cama de Rita mas tire toda a roupa. Quando voltar, ela passa a ferro. E tambm vai dar uma engraxada nesses sapatos.
  Duas horas depois Leo acordava e via sobre uma pequena mesa sua roupa passada e sob a cama os sapatos engraxados e lustrosos. Vestiu-se, calou-se, foi lavar o rosto e dirigiu-se  cozinha atrado por um delicioso cheiro de comida.
  Foram para a mesa, Rita servindo o almoo.
  -- Entregou a carta a meu pai? -- perguntou Leo.
  -- Entreguei e ele leu na hora -- respondeu Rita.
  -- Mandou algum recado?
  Rita olhou para ngela, que falou:
  -- Seu pai mandou dizer para tomar cuidado.
  -- Isso eu sei.
  -- Ele desconfia que sua casa est sendo vigiada -- acrescentou ngela.
  Leo perguntou a Rita:
  -- Voc viu algum perto de minha casa?
  -- No.
  -- Tem certeza de que ningum a seguiu?
  -- No vi ningum me seguindo.
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  Leo, enquanto comia, fazia elogios  cozinheira, mas a tenso voltara. Seu pai tambm no era desses que vem fantasmas, p na terra como ele. Se vira algum rondando a casa devia ser verdade. Mas no queria antecipar temores.
  Depois do almoo, Leo e ngela voltaram para o *living* e ela ligou o aparelho de som. Ele disfaradamente espiou pela janela. Do outro lado da rua viu um Fusca branco. No dava para notar se havia algum dentro. Chamou ngela com naturalidade, apenas para fazer uma pergunta.
  -- J viu aquele Fusca parado ali?
  -- No, acho que no -- respondeu ngela hesitante.
  -- Posso perguntar para a Rita?
  -- Vou cham-la.
  Rita veio e espiou pela janela com uma cautela que ningum solicitara.
  -- Sempre param carros a -- respondeu.
  -- Mas no lembra dum Fusca branco?
  -- No.
  Leo fingiu interessar-se pelos novos *long-plays* de ngela e trocaram informaes sobre os ltimos lanamentos.
  O grande momento da tarde, porm, viria bem depois, quando sem palavras ela o convidou para danar. A ele fez o possvel para esquecer o Fusca branco e acabou conseguindo. Chegou a divertir-se embora os msculos o lembrassem a todo instante o esforo desesperado na represa aquela manh.
  Quando ngela foi buscar mais refrigerante, Leo correu  janela.
  O Fusca branco ainda estava l. ngela o surpreendeu espiando, o que ele no desejava.
  -- O carro j foi embora?
  -- No, mas no vamos nos assustar. Quantos Fuscas brancos existem em So Paulo?
  -- Ento vamos danar mais um pouco. Tenho uma faixa que voc vai gamar.
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  Enquanto danavam, Rita foi  janela e bradou a novidade:
  -- O carro sumiu!
  Leo e ngela correram para a janela. Verdade: o Fusca tinha partido.
  -- Eu j estava encucado -- confessou Leo.
  -- Eu tambm -- confessou ngela. -- O pessoal deste quarteiro no tem Fusca. Aqui o carro mais barato  o Passat.
  Aliviados, os quase-namorados puseram outra faixa no *pick-up* e voltaram a danar trocando olhares duma alegria que nascia e se expandia.
  -- Eu dano mal -- disse Leo.
  -- Basta imitar os meus passos. J ganhei um concurso de *rock*.
  -- Fui poucas vezes s discotecas. Estudo  noite, voc sabe.
  -- H muitas discotecas que funcionam aos sbados  tarde.
  -- Podemos ir num desses sbados?
  -- Vou ter que esperar seu convite?
  Muito feliz, Leo largou-se numa das fofas poltronas do apartamento. ngela sorriu para ele, ambos naquela fase em que as palavras so dispensveis. Em seguida, foi espiar  janela.
  -- Leo! -- ela gritou. -- O Fusca! Voltou!
  O rapaz foi espiar, ao lado dela, j cauteloso. Sim, o Fusca estava l. Os dois se abraaram, olhando para baixo, com um medo que apagou todas as emoes boas que haviam tido. Logo Rita juntou-se a eles, vendo entre as cortinas da janela o Fusca branco.
  -- Se  aquela gente, como foi que descobriu voc aqui? -- perguntou ngela.
  -- Seguiram a Rita quando foi levar a carta a meu pai.
  -- No vi ningum me seguindo.
  -- Seguiram de carro, Rita.  a nica explicao.
  Os trs ficaram em silncio.
  -- Voc no vai sair -- disse ngela. -- Meus pais esto viajando.
  Leo segurou as mos de ngela.
  -- Essa gente no ficaria aqui se no tivesse certeza absoluta. Desa  portaria e pergunte se algum andou fazendo perguntas a meu respeito. Pode fazer isso?
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  -- Claro -- respondeu ngela. -- Volto num instante.
  Quando ngela saiu do apartamento, Leo telefonou para o Emperor Park Hotel. Mandou chamar Guima e contou-lhe o que estava acontecendo. Se ele escapasse, o jeito era refugiar-se em seu apartamento, embora fosse endereo j conhecido da quadrilha, de onde iriam para o stio. Guima ia dizendo sim, sim, sim, nervosamente, prometendo-lhe que mesmo no estando em casa no fecharia a porta a chave para que Leo pudesse esconder-se l a qualquer momento.
  Logo que Leo desligou o telefone, ngela voltou. Mais plida ainda.
  -- Leo, eles falaram com o porteiro. Quiseram saber se tinha entrado um rapazinho com as roupas molhadas e fizeram uma descrio do seu fsico.
  -- O porteiro confirmou?
  -- Confirmou -- disse ngela. -- Leo, eles sabem que voc est aqui.
  -- Sempre  bom saber o que eles sabem -- comentou Leo, apenas como consolo.
  -- Ser que avisaro a polcia?
  -- No -- garantiu Leo. -- A essa altura do jogo no querem que eu tenha nenhuma ligao com a polcia. Querem simplesmente me matar.
  ngela comeava a perder o controle.
  -- Leo, telefone ao delegado e entregue-se. Voc estar mais seguro preso.
  -- No -- respondeu o rapaz com firmeza. -- Preso no poderei provar nada.
  -- E se eles tentarem entrar? Podero fazer isso dizendo-se policiais.
  -- J pensei nisso -- disse Leo. -- Por isso no poderei ficar aqui muito tempo. Apenas esta noite.
  -- Voc sairia com eles l embaixo?
  --  o que vou fazer, amanh cedo.
  -- Eles o mataro.
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  -- No h outro jeito, ngela.
  -- E para onde ir?
  -- Para o apartamento dum amigo, aqui perto.
  ngela alimentava uma esperana:
  -- Quem sabe durante a noite eles se cansem e vo embora.
  -- Isso no vai acontecer, devem ter um esquema. O importante agora  nos organizarmos tambm. Eu, voc e Rita teremos que nos revezar na janela. Se entrarem no prdio, descerei pelas escadas.
  Foi o que fizeram; estava sempre um  janela espiando o Fusca branco. s vezes o carro movimentava-se, indo talvez at o fim da rua mas logo regressava ao mesmo lugar. Da altura do apartamento no se podia ver os ocupantes do Fusca, apenas, de quando em quando, a mo de algum segurando um cigarro.
  -- Acho que  noite no tentaro nada -- concluiu Leo. -- Mas estaremos atentos.
  -- Como  que vai sair amanh? -- perguntou ngela. -- Correndo?
  -- No -- respondeu Leo. -- Pretendo sair bem devagar.

A fuga sensacional do apartamento

  Logo s primeiras horas da manh Leo preparou-se para sair. Seu plano exigiu colaborao. Vestiu um belo vestido azul de ngela, enfiou na cabea uma peruca de Rita e calou sapatos altos. A maquilagem, feita pelas duas moas, foi a fase mais artstica e demorada da tarefa. Mas o trabalho maior foram os ensaios. Vestir-se simplesmente de mulher no era o suficiente. Precisava andar como mulher, pisar com delicadeza, dando ao corpo um balano discreto e convincente.
  ngela e Rita obrigaram Leo circular por todo o apartamento muitas vezes para aperfeioar passos e maneiras.
  O progresso era lento mas visvel.
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  -- J est bom -- disse ngela.
  -- No acho, parece que me falta alguma coisa. Queria estar segurando alguma coisa.
  -- Leve alguns livros -- sugeriu Rita.
  -- Livros, no. Ningum vai to cedo  escola.
  -- O que poderia ser? -- indagava-se ngela, pensando nos seus objetos de uso cotidiano.
  -- Acho que j achei -- disse Leo olhando uma parede do corredor. -- Raquete de tnis! Posso levar aquela?
  -- Pode, sim.
  -- Ela vai me livrar dos sapatos altos.
  Leo pegou a raquete, calou sapatos baixos, os que ngela usava para ir  quadra, e deu novo passeio pelo *living*.
  -- Agora, sim. Sou uma moa que aproveita a manh para praticar esporte. J me parece menos suspeito.
  -- Posso at suavizar a maquilagem.
  -- Ento vamos fazer isso. Estou de partida.
  ngela, com um leno, tirou parte da pintura da senhorita, tornando o disfarce menos exagerado. Mas a idia da raquete era o detalhe que dava maior realidade quela fantasia matutina.
  -- J vou -- disse Leo.
  -- Est com medo?
  -- Se dissesse que no seria o maior mentiroso.
  ngela olhou-o mais uma vez com senso crtico.
  -- Segure a raquete com mais leveza, ela no  uma enxada. E siga em sentido contrrio ao carro para que eles no tenham muito tempo para observ-lo.
  -- Esse conselho parece de meu primo Gino.
  -- V, ento.
  Leo deu um beijo suave nas duas, para no desbotar os lbios, e saiu do apartamento, enquanto ngela ia para a janela e Rita cerrava as mos em atitude de quem faz um pedido urgente a Deus. No elevador Leo sentiu dor de barriga e quase volta ao apartamento, mas teve que reagir e assumir sua nova identidade j no 
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quinto andar quando entraram uma bab com duas meninas. A bab nem olhou para Leo mas as meninas no tiraram os olhos dele, srias e com insistente desconfiana. No terceiro andar entrou um senhor muito elegante que cumprimentou a todos. O bom-dia de Leo, grosso demais mesmo para uma campe de tnis, chamou a ateno geral, e ele comeou a pigarrear explicando a masculinidade de sua voz.
  Leo saiu do edifcio com a bab, as duas crianas e o homem elegante do terceiro andar, mas s ele tomou direo oposta  do Fusca. Ao chegar  rua seu desejo era correr, mas atento ao plano foi andando devagar, proeza difcil, mesmo com sapatos baixos. Gostaria tambm de olhar para trs, na direo do Fusca, porm se o fizesse estaria perdido.  luz da manh e olhado curiosamente pelos raros transeuntes, sentia-se ridculo com aquelas roupas. E quando caprichava os passos, na tentativa de ser mais feminino, resultava na impresso de que seu fracasso ficava mais patente. Ao virar a esquina, fora da viso dos ocupantes do carro branco, perdeu o equilbrio e correu um quarteiro inteiro a vibrar a raquete como se pretendesse voar.
  O edifcio onde Guima morava era perto mas Leo chamou um txi, agitando a raquete, j esquecido de qualquer postura feminina. Fez um trajeto to breve que irritou o motorista. Em seguida, entrou no prdio como uma bala, subindo as escadas de trs em trs degraus. Uma senhora que descia, deteve-se espantada observando a incrvel agilidade e disposio fsica da tenista.
<P>
  -- E ainda dizem que certos esportes fazem mal s mulheres -- comentou em voz alta.
  Leo tocou a campainha e simultaneamente bateu repetidas vezes na porta do apartamento.
  Guima abriu a porta sem reconhecer o visitante.
  -- Sou eu, Leo.
  -- O que faz, vestido de mulher?
  -- Foi o jeito para escapar dos bandidos.
  Leo entrou e jogou-se, exausto, numa cadeira enquanto Guima 
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lhe servia um copo de gua. O rapaz bebeu-o em dois goles, e s depois falou.
  -- Eles passaram a noite inteira dentro dum Fusca branco diante do prdio de ngela, no Morro dos Ingleses.
  -- Tem certeza de que no foi seguido?
  -- Assim que virei a esquina, corri e peguei um txi.
  -- Ainda bem.
  -- Queria saber se meu pai foi  delegacia.
  -- Foi -- respondeu Guima. -- Estive em sua casa ontem  noite.
  -- Ele entregou minha carta ao doutor Arruda?
  -- Entregou.
  -- O que ele disse?
  -- O delegado continua achando que voc est sofrendo das faculdades mentais. E ainda insiste para que comparea  delegacia.
  -- Mas no vou me apresentar.
  -- Quais so ento seus planos?
  -- No momento  me esconder daquela gente.
  -- J falei com o dono do stio.  um pouco alm da periferia. H um casal de caseiros tomando conta. Pode ficar l alguns dias.
  -- Voc me leva?
  -- Claro, avisei o Percival que hoje chegarei tarde.
  -- Ento, vamos.
  -- Voc vestido dessa maneira?
  -- Ser que no tem uma roupa que me sirva?
  -- Leo, est louco, eu peso quase cem quilos!
  -- Ir at minha casa buscar roupas seria perigoso.
  -- E no h nenhuma loja de roupas masculinas no bairro.
  -- Sei duma pessoa que tem minha altura e meu peso, o primo Gino. V at a casa dele.
  -- Boa lembrana.
  Guima voltou meia hora depois com um par de calas e camisetas de Gino. E tambm sapatos.
  -- Aqui est tudo. Vista-se.
  -- Guima, estou preocupado com ngela.
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  -- Por qu?
  -- Eu morreria de remorsos se lhe tivesse acontecido alguma coisa.
  -- Depois vai saber disso.
  -- No, quero saber agora.
  -- Agora?
  -- Vou telefonar para ela. H um bar na esquina.
  -- Com o tal Fusca branco rondando por a? Neste prdio h um telefone, o nico. Pertence ao Pituca, um palhao. Volto j. Leo tirou com satisfao os sapatos e as roupas de tenista substituindo-os pelos calados, calas e camisetas do primo. Assim, vestido masculinamente, sentia-se mais livre e capaz de reao mais imediata. Mas acariciou a raquete como se quisesse guard-la como recordao de ngela e daqueles momentos que, um dia, relembrados, talvez o fizessem rir.
  Guima deu trs batidas na porta e Leo abriu-a.
  -- Voc foi rpido.
  -- Pituca no permite que se demore no telefone.
  -- Falou com ela?
  -- Falei. Tive de convenc-la de que sou seu amigo.
  -- Alguma novidade?
  -- Sim, dois caras subiram ao apartamento dizendo-se da polcia. A moa permitiu que entrassem e revistassem todos os cmodos. Eles revistaram certos de que a presa j escapara. Quando lhe perguntaram para onde o rapaz fora, ela respondeu que voc tinha ido entregar-se  polcia.
  -- Obrigado, Guima. Estou mais tranqilo agora.
  -- Vamos ao stio.
  Leo aceitava essa nova mudana de endereo sem nenhum prazer. No stio estaria fora da luta e sem possibilidade de dar novos xeques no Baro, deixando ao tempo a soluo de seus problemas. E o tempo nunca tem pressa.
  Guima e Leo desceram. O velho Fusca de Guima estava na porta. Primeiro olharam para ver se havia gente suspeita por l, depois entraram no carro.
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  -- Adeus, Bela Vista! -- disse Leo enquanto o amigo dava a partida.
  -- J estava em tempo de voc aproveitar as frias escolares.
  -- Se o Baro no for apanhado no sei at quando estarei de frias.
  Guima tinha pouco a dizer. Foi dirigindo rapidamente, afastando-se da zona urbana. Levar Leo para lugar seguro era o mximo que podia fazer por ele naquele momento. O resto era confiar na sorte e aguardar as boas surpresas que s vezes o destino prepara.
  O rapaz viajava de cabea baixa, desanimado.
  -- Est aborrecido? -- perguntou Guima.
  -- Vai ser chato cruzar os braos, esperando, e mais nada.
  -- Voc ter o que fazer.
  -- Tirar leite de vaca?
  -- No, vou lhe dar um quebra-
 -cabea.
  -- Que quebra-cabea?
  -- No porta-luvas.
  Leo abriu o porta-luvas.
  -- O que tem aqui?
  -- No tem papis? D uma olhada.
  O rapaz interrompeu a ao, antecipando uma pergunta:
  -- Seja o que for, como obteve?
  -- Jandira, a camareira.
<P>
  Bastou o nome para deixar Leo irritado.
  -- Foi ela que me dedou, dizendo ao gerente que estive com voc no apartamento do Baro.
  Guima perdoava-a:
  -- Ela foi forada a falar. Mas de qualquer maneira ficou com remorsos quando soube que foi despedido. Um dia lhe contei tudo e consegui que me ajudasse.
  -- Como? -- perguntou o rapaz, interessado, agitando-se todo.
  -- Sempre que via o Baro sair, eu subia e pedia  Jandira que abrisse a porta do 222. s vezes ela ficava de guarda no corredor, caso ele aparecesse. Mas nunca me demorei.
  -- O que voc estava procurando?
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  -- No sei. Qualquer coisa que pudesse compromet-lo. No guarda-roupa, no criado-mudo, nas malas, quando estavam abertas, e na lixeira. Revistava tudo.
  Leo enfiou a mo no porta-luvas.
  -- E achou algo positivo?
  -- No se entusiasme.  apenas um quebra-cabea.
  O rapaz retirou os achados de Guima do porta-luvas.
  -- E isto, onde estava?
  -- Na lixeira.
  -- Quando?
  -- H alguns dias.
  Leo lanou os olhos nos papis com uma curiosidade que logo cedeu espao ao enigma. No se sentiu capaz de entender coisa alguma. Seria uma tortura levar tal charada ao stio, sem ter algum com quem trocar hipteses. Tomou uma resoluo.
  -- Vamos voltar, Guima.
  -- Voltar, para onde?
  -- Leve-me  casa de tia Zula. Se isto tem algum sentido, talvez eu e o Gino, juntos, possamos esclarecer. Voc sabe como ele  bom para essas coisas. Cabea de enxadrista.
  -- Mas seria perigoso, Leo! Quer voltar para a boca do leo?
  -- Boca do leo seria o seu apartamento, o de ngela ou minha casa. L, com tia Zula e Gino, eles nunca me incomodaram.
  -- Leo, prometi a seus pais que o levaria para o stio.
  -- No quero ir mais para o stio. Mudei de idia. Preciso solucionar esse quebra-cabea com Gino. Faa a volta, Guima!
  -- Voc est doido, garoto!
  -- Acho que estou mesmo. Toque pra So Paulo.

O quebra-cabea

  Gino j sabia de tudo mas queria ouvir a histria da prpria boca do primo, com uma ansiedade prazeirosa como se tratasse de pura fico. E estava agradecido a Leo por ter voltado porque assim ficava 
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outra vez no meio dos acontecimentos. No se preocupava com o perigo, e foi logo dizendo que, se os quadrilheiros aparecessem, Leo poderia escapar pelo muro do quintal, saltando para a casa dos fundos. Para isso havia uma escada bem a jeito.
  -- No estou com medo -- disse Leo. -- Embora estaria muito mais seguro no stio.
  -- Ento por que veio?
  -- Para lhe trazer um quebra-cabea.
  -- O que quer dizer isso?
  Leo tirou do bolso os papis que Guima guardara no porta-luvas.
  -- Isto esteve na lixeira do apartamento do Baro. Guima pegou ajudado pela camareira.
  Gino examinou, atento, o que chamou de "material de pesquisa", com alguma dificuldade inicial porque todo ele estava rasgado e amassado. Mas o que era aquilo?
  Um pequeno recorte de jornal no qual um crculo feito com lpis vermelho assinalava partidas de avies para Nova Iorque e Los Angeles.
  Pedaos de trs contas, altssimas, feitas num hotel da cidade de Corumb, uma em nome de (rasgado) ...ena Fuentes e duas outras em nome de (rasgado) ...onel Barrios.
  E num papel inteiro, desenhado com esferogrfica, uma espcie de mapa, tendo uma cruz numa das extremidades.
  Era tudo.
  --  primeira vista o que h de mais interessante aqui so os nomes -- disse Gino. -- ...ena Fuentes e ...onel Barrios. O de homem deve ser Leonel. Mas o da mulher  mais difcil completar. Talvez Madalena.
  Leo deu um salto.
  -- J sei.  Malena. Foi como um dos homens que estavam no iate chamou a falsa jornalista. Malena Fuentes e Leonel Barrios. Devem ser de algum pas da Amrica do Sul.
  -- O hotel  de Corumb, Mato Grosso, o que  tambm revelador.
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  -- Por qu?
  -- Leo, eu sou um cara que l muito jornais e revistas. E sei que todo o txico que vem da Bolvia passa por Corumb donde  transportado para So Paulo e Rio de Janeiro. A ltima etapa  Amrica do Norte.
  -- Por isso o Baro anota partidas de avies.
  -- Certamente a muamba  levada em determinados avies.
  -- Uma quadrilha internacional!
  -- Sem dvida.
  Leo pegou o papel em que havia o mapa, de todos o mais misterioso.
  -- Seria o mapa da mina?
  -- Pode ser.
  -- Mas como mapa  pobre de detalhes, s aquela cruz!
  -- Um mapa sem estradas, sem esquinas, sem indicaes.
  -- Ento no  um mapa -- concluiu Leo, apressado.
  -- Ainda continuo achando que , primo.
  -- Sem nenhum acidente ou flecha? Para mim no  mapa.
<P>
  Gino, o enxadrista, e tambm decifrador de quebra-cabeas, disse como quem j resolveu o problema:
  -- Sabe por que esse mapa no tem indicaes? Por que ele  todo uma superfcie lisa?
  -- No sei.
  -- Porque isto deve ser gua. No Rio seria a Lagoa Rodrigo de Freitas. Aqui deve ser a Represa Billings.
  -- Para onde me levaram.
  -- E essa cruz  a localizao da casa.
  -- Isso, Gino! Da casa onde eu ficaria preso.
  -- No sei, primo, se pretendiam apenas prender. Como tambm no acredito que tivessem alugado uma casa com esse nico objetivo. Para mim  onde guardam o txico que vem da Bolvia at despach-lo para o exterior.
  Leo levantou-se, deu um passeio pela sala, com um entusiasmo que procurava conter.
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  -- Primo, tudo isso me parece muito claro. Mas depois de minha fuga devem ter abandonado essa casa.
  -- Por qu? Voc no chegou a conhec-la. E, depois, quem acredita nas coisas que diz?
  Leo tornou a sentar-se.
  -- Acha que a casa ainda est sendo usada?
  -- Duvido que exista melhor esconderijo em So Paulo.
  -- Bem! Digamos que j temos o mapa da mina. Tudo certo. Mas o que vamos fazer com ele? A polcia no vai me dar crdito s porque foram encontrados esses papis no lixo do 222.
  Gino bateu com a mo espalmada no ombro de Leo para acalm-lo.
  -- A tarefa era s o quebra-cabea. Agora vamos pensar o que vamos fazer.
  -- Tem alguma idia?
  -- Nenhuma, primo.
  -- No sugere nada?
  -- Sugiro: vamos jogar uma partida de xadrez.
   noite, bem tarde, Guima apareceu na casa de tia Zula, que j fora deitar. Tinha novidade.
  -- Sabem quem me telefonou?
  -- Diga logo -- ordenou Leo.
  -- Doutor Arruda.
  -- O que ele queria?
  -- Disse que pela primeira vez o meu amiguinho falou uma verdade. A respeito do Corcel marrom. De fato roubaram um que no dia seguinte apareceu nas imediaes da represa.
  Leo, porm, no deu nenhum pulo de satisfao.
  -- Certamente est pensando que roubei o carro. Eu que no sei dirigir.
  Guima sacudiu a cabea.
  -- Ele no est pensando isso.
  -- Como sabe?
  -- O ladro foi visto.
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  -- Foi?
  -- Sim, por um vizinho do dono do carro. Era um homem alto e muito bem vestido. Nada parecido com voc, Leo.
  Leo e Gino trocaram olhares e sorrisos.
  -- Acho que quebrei o gelo do delegado.
  -- Mas ele continua exigindo que voc se apresente -- disse Guima.
  -- No ainda -- disse Leo. -- Voc vai levar dois nomes para ele. Provavelmente das pessoas que quiseram me seqestrar. Se elas tiveram algum envolvimento com a polcia, se esto sendo procuradas, ento me apresento e com novas dicas.
  -- Pode deixar -- respondeu Guima com a alegria de quando recebia uma boa gorjeta. -- D-me os nomes. Amanh telefono para ele.
  Foi a vez de Gino rir:
  -- Eu e o primo estaremos aqui fazendo figas.
  Leo tinha mais uma pergunta a fazer:
  -- Como vai o Baro?
<p>
  -- Muito preocupado com as crianas desamparadas -- respondeu Guima comovidamente.

Uma reunio muito importante

  Gino saiu cedo de casa, em sua cadeira de rodas, e voltou algum tempo depois com xerox do "material de pesquisa". Queria tambm dar uma olhada pelo quarteiro para ver se pessoas suspeitas andavam rondando. Tudo tranqilo na rua.
  Leo e Gino sabiam que aquelas horas seriam lerdas e longas. E para complicar seu estado de esprito Leo estava com muita saudade de dona Iolanda, do pai, de Diogo e do nono. Mas uma saudade especial e com um gosto diferente sentia de ngela. Nunca mais a vira desde o dia da represa. Ela seria a mesma quando tornasse a v-la? Essa era a pergunta que a saudade lhe trazia.
  Leo e Gino leram os jornais vrias vezes, assistiram a programas vespertinos de televiso, mas no conseguiram jogar xadrez. Sabiam 
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que s a sorte podia pr um fim quela expectativa. Hans tinha ficha policial limpa. Aconteceria o mesmo com Malena e Leonel? Gino achava difcil que profissionais da delinqncia pudessem ser to insuspeitos como o benemrito Baro. O dia consumiu-
 -se em suposies e esperanas que s serviam para ajudar o tempo passar.
   noite, Guima, como prometera, fossem quais fossem as novidades, apareceu.
  Leo, nervoso, ordenou:
  -- Conte logo, Guima.
  -- Vamos por partes.
  -- Por partes mas bem depressa.
  -- Hoje logo cedo liguei para o doutor Arruda e lhe passei os dois nomes dizendo que eram seus provveis seqestradores. No pensem que passei um dia muito calmo. Para mim tambm a espera foi dura. S no fim da tarde ele telefonou para a portaria do hotel.
  -- O que disse?
  -- Exige sua presena amanh na delegacia.
  -- No irei -- bradou Leo.
  -- Espera, voc no ouviu tudo. Aqueles dois esto no lbum.
  -- Malena e Leonel?
  -- Sim -- confirmou Guima. -- J estiveram envolvidos em trfico de txico. Leonel, inclusive, cumpriu pena.
  -- Mesmo assim no tenho coragem de ir  polcia -- confessou Leo, olhando Gino  espera de um conselho.
  -- No sei o que dizer -- confessou Gino.
  -- Mas ele no quer prender voc -- garantiu Guima.
  -- Ento o que quer?
  -- Eu disse que voc tem outras informaes. E o Arruda quer ter conhecimento delas. Mostre-lhe o recorte dos jornais e o mapa da represa. Depois do roubo do Corcel e dos dois nomes que voc forneceu, comea a achar que no  to doido como pensava.
  -- Continuo com medo, Guima.
  -- Vou com voc  delegacia.
  -- No se comprometa, Guima. Pode perder o emprego no Park.
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  -- Um momento -- disse Gino ansioso. -- H escadas na delegacia?
  -- Escadas? No. H uma rampa, depois os elevadores.
  -- Rampa -- exclamou Gino. -- Que coisa maravilhosa! Ento vou com voc, Leo.
  -- Gino, est falando srio?
  -- Claro! E se quiserem prender voc tero que prender a mim tambm. Afinal somos scios, no?
  -- Acho uma boa ir acompanhado -- disse Guima -- embora acredite que o Arruda no tenha inteno de prend-lo. Mas, por favor, me mantenham informado. Quero saber o que acontece.
  E naquele momento comeou para Leo e Gino um novo e ansioso tempo de espera.

Dentro da casa da represa

  Na dcima primeira casa da represa que Leo tocou a campainha fez a mesma pergunta de sempre:
  -- Malena est?
  Em todas as respostas no variara: aqui no mora nenhuma Malena. Mas nessa, o homem que abriu a porta, depois duma hesitao com os mesmos sintomas duma clica de fgado, repetiu o nome.
  -- Malena?
  -- Sim, Malena Fuentes. Preciso falar muito com ela.  importante.
  -- Espere um pouco.
  -- Prefiro esperar a dentro -- disse Leo com uma deciso que no admitia controvrsia.
  Leo entrou numa sala mobiliada com mveis baixos e rudes. Alis, aquele parecia o endereo duma casa de campo. Esse homem talvez seja o piloto do iate, pensou o rapaz, vendo-o afastar-se precipitadamente.
  A demora foi maior do que Leo podia prever. Mas os passos que ouviu no eram de Malena. O homem que abrira a porta, voltava. Trazia na bandeja uma pergunta:
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  -- O que deseja com Malena?
  -- O assunto  particular.
  -- Qual  seu nome? -- foi a segunda pergunta, j um tanto spera.
  -- Isso tambm  particular -- respondeu Leo. -- Mas no h nada, no. Volto outro dia.  uma pena.
  O homem no permitiu que sasse:
  -- Um momento.
  Tornando a ficar s, Leo lamentou que sua inquieta ansiedade tivesse de ser dividida em etapas. Foi espiar pela janela. Na rua apenas um jovem paraplgico passeava em sua cadeira de rodas. Ouviu depois o tilintar duma extenso telefnica. Se estivesse mais calmo, riria, porque naquela manh, no hotel, nem o Baro nem Hans receberiam chamados telefnicos, outra esplndida idia de Gino que o doutor Arruda aceitara sem discusso. Malena e seu grupo teriam que agir pela prpria cabea, sem o auxlio da privilegiada cuca do benemrito Oto Barcelos.
  Afinal, elegante como na primeira vez em que Leo a vira, Malena apareceu.
  -- O que deseja, moo?
  -- Ol! Lembra de mim?
  -- No, no lembro.
  -- Talvez seu amigo Leonel Barrios lembre. Ele no est em casa?
  -- Conhece Leonel?
  -- Ser que esqueceu? Ns trs j nos divertimos bastante num iate na represa. Mas ele era alugado, no? Parece que vocs no contam muito com conduo prpria.
  Uma outra voz se fez ouvir:
  -- Como voc veio parar aqui?
  Leo viu Leonel que entrara por outra porta do *living*.
  -- Ah, est aqui, senhor Barrios!
  -- Eu fiz uma pergunta.
  -- E vou respond-la: naquela linda manh segui vocs dois.
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  -- No  verdade, ningum nos seguiu -- garantiu Barrios dando sua palavra de delinqente tarimbado.
  -- Bem... acho que tem razo. Foi Hans que me deu o endereo.
  Leonel olhou para Malena, irritado.
  -- Hans? -- E fez a pergunta dirigida a ela: -- Por que faria isso?
  Mas quem respondeu foi Leo.
  -- Porque ele acha que eu posso trabalhar com vocs.
  -- Ele no nos disse nada -- disse Barrios.
  -- Telefonem para ele -- pediu o rapaz. -- Eu espero. No tenho pressa. Lavanderia. Ramal 12. Ele atende logo porque  o chefe.
  -- J telefonei -- disse Malena. -- Ele no est.
  Leo tinha outra sugesto:
<P>
  -- Ento telefonem para o 
 Baro.
  No responderam mas com certeza j haviam telefonado.
  -- Ns sabemos o que devemos fazer -- disse Barrios.
  -- timo! No estou querendo influir -- rebateu o rapaz, aproximando-se da sada. -- O melhor  passar aqui  tarde.
  -- Voc no vai sair -- garantiu Barrios tambm chegando-se a passos rpidos.
  O homem que abrira a porta reapareceu, bloqueando com seu corpo uma possvel fuga. O trio era afinado.
  Leo sentiu as garras de Barrios em seu brao.
  -- Essa  uma visita cordial -- disse. -- Queria apenas entrar na panela.
  Malena, que devia ter melhor cabea que seus companheiros do sexo masculino, preocupava-se em entender a presena do rapaz ali na represa.
  -- Ele veio fazer chantagem!
  O que abrira a porta, comentou:
  -- Um novo Ramon Vargas!
  Mas Barrios foi mais prtico.
  -- Algum sabe que voc veio aqui?
  -- Meu primo.
  -- S o seu primo? -- perguntou Barrios.
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  -- Se pretendia ganhar dinheiro no podia espalhar.
  Barrios voltou a apertar-lhe o brao.
  -- Voc vai ser torturado at dizer onde podemos encontrar o seu primo.
  -- No  preciso nada disso, senhor.
  Barrios -- ?
  Malena -- ?
  O piloto do iate -- ?
  -- Ele veio comigo.
  -- Veio com voc? Onde est?
  -- A na rua, logo virando, diante do orelho. Se eu demorar, chama a polcia. Quem sabe at j chamou.
<p>
  No acreditando, Barrios perguntou:
  -- Como  o seu primo?
  --  um rapaz pouco mais velho que eu. Est numa cadeira de rodas.
  -- Numa cadeira de rodas? -- espantou-se Malena.
  -- No que ele goste tanto de andar em cadeira de rodas,  paraltico.
  -- Isso  uma brincadeira, no? -- indagou Barrios, com ferocidade.
  -- Se no acreditam, prendam-me. Em quinze minutos a polcia estar aqui.
  Os trs no sabiam o que decidir.
  -- Fique com ele -- decidiu Barrios, dirigindo-se a Malena. -- Eu e Maurice vamos at a esquina.
  Malena abriu uma gaveta e retirou um revlver.
  -- No faam mal ao meu primo -- pediu Leo com planejada ingenuidade.
  Barrios e Maurice sem mais uma palavra saram da casa, enquanto o rapaz sentava-se num pufe com uma calma que Malena no podia entender.
  -- Voc mentiu, no? -- perguntou.
  -- Disse a verdade. Vim com um primo. Paraltico.
  -- Voc no se arriscaria.
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  -- Posso ter cometido um erro. Vamos ver.
  O tempo passava e Barrios e Maurice no voltavam. A moa ficava mais inquieta a cada segundo que passava. Leo, sentado no pufe, relaxado, fez uma suposio jocosa.
  -- Aposto que os trs foram tomar cerveja. Gino, o meu primo, adora cerveja.
  -- Ele ficou no orelho?
  -- A duzentos metros aqui da casa.
  -- Ento j deviam ter voltado.
  -- Tambm acho que esto demorando.
  -- Seu primo estava armado?
  -- No, mas  faixa preta.
  -- No disse que  paraltico?
  -- Mas fez um curso especial.
  Mais alguns minutos e Malena j no se continha.
  -- Diga o que aconteceu!
  -- Como posso saber se estou sentado aqui? Mas, se quiser, vou ver.
  -- Voc no vai sair daqui, menino.
  -- Nem pretendo.
  Ouviram batidas na porta e Malena correu para abri-la. O delegado Arruda, o detetive Lima e um policial fardado entraram empunhando revlveres.
  -- No adianta apontar essa arma, Malena -- disse o delegado. -- A casa est cercada e os dois gorilas foram presos sem um disparo, perto do orelho.
  -- Mentiroso! -- bradou a traficante a Leo.
  -- No menti, meu primo existe mesmo. E veio numa cadeira de rodas, mas dentro dum carro da polcia. O senhor delegado est a de prova para afirmar que sou um rapaz que no mente.
  O delegado deu um sorriso amarelo, mas no dispunha de outro, doutra cor, no momento.
  -- Agora vamos descobrir que tipo de obras de arte eles escondem nesta casa -- disse o Lima.
  Estava tudo l, guardadinho. Mas o assunto ainda no era para 
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jornais porque um pombo-correio e um gavio ainda gozavam de liberdade.

Mais roupa suja para lavar

  A telefonista recebera ordem do doutor Arruda para no chamar nem Hans nem o Baro ao telefone aquela manh. No que dizia respeito a Hans era injusto porque, como chefe do seu departamento, jamais abandonava seu posto nas horas de servio. Para um ex-lutador era at bom funcionrio do Emperor Park Hotel. Seria exemplar se paralelamente no exercesse outro ofcio.
  Hans movimentava-se pela lavanderia, imprimindo ritmo ao trabalho, sempre a enxugar a testa com um leno, quando um *bellboy* passou por ele e cumprimentou-o.
  -- Ol, Hans!
  O Alemo olhou fixamente para o mensageiro, como se por descuido tivesse enfiado o dedo numa tomada eltrica, e ato contnuo o perseguiu, esquecendo suas funes.
  -- O que est fazendo aqui?
  -- Aqui onde? -- perguntou o jovem com a farda do hotel.
  -- Aqui, no Park.
  -- Fui readmitido -- respondeu Leonardo Fantini.
  -- Mas a polcia no estava  sua procura?
  -- Estava. Por roubo dum isqueiro e outros objetos.
  -- E no est mais?
  -- No, porque prestei um grande servio  polcia, Hans. Foi hoje cedo. E o prprio doutor Arruda pediu ao Percival que me readmitisse. Talvez seja at promovido. Chefe dos *bellboys*.
  -- Que servio prestou  polcia?
  -- Dei a pista de alguns traficantes. Eram trs, Malena, Barrios e Maurice. Moravam numa casa na represa. Uma enorme quadrilha. 
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Neste momento j esto dando os nomes dos outros. Mas o que est acontecendo, Hans? Empalideceu? Certamente  o calor. Vamos tomar um refrigerante?
  -- No.
  -- A gente vai e volta em quinze minutos.
  -- No estou com vontade.
  -- Sabe, queria lhe pedir desculpas pela acusao... Vamos ao bar para formalizar meu arrependimento.
  -- Tenho mais o que fazer -- disse Hans afastando-se na direo dos armrios onde os funcionrios da lavanderia guardavam suas roupas. 
<p>
  Pelo jeito Hans queria vestir-se para ir embora. Realmente devia estar se sentindo mal. Mas suas roupas e at objetos de uso pessoal, como um revlver, haviam desaparecido.
  -- Sou o novo detetive do hotel. Desapareceu alguma coisa do seu armrio? -- perguntou Lima.
  -- No -- respondeu Hans, disposto a sumir do hotel em seu macaco de trabalho.
  -- Ento, o que estava procurando?
  -- Pus minha roupa noutro armrio.
  -- Acho que no, Hans -- disse Lima. -- Sua roupa e seu revlver estavam aqui h alguns minutos. Mas em seu lugar eu no fugiria. O elevador est parado no trreo. H quatro policiais na escadaria. E a sada de servio, por onde voc levou o corpo de Ramon Vargas, est cercada. A bem da verdade a rua toda est cercada. E nem pense em apelar ao Baro. O bom homem est trabalhando em benefcio do prximo. No podemos perturb-lo com assunto to sujo.
  Hans no era to mal-humorado como sempre parecera a Leo. Ao admitir-se derrotado, riu. E nem era to estpido porque quando abriu a boca foi para dizer:
  -- Vou contar tudo que sei.
  -- Vai abrir o bico tambm contra o Baro? -- perguntou o delegado.
  -- Sim -- disse Hans -- embora tenha devolvido o meu isqueiro.
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Um agradvel ch das cinco

  O Baro e umas duas dezenas de senhoras da sociedade, interessadas em obras filantrpicas, alm de inmeros jornalistas e fotgrafos, reuniam-se num elegante salo de ch para comentar resultados da campanha que faziam em prol das crianas necessitadas.
  Sobre um praticvel, espcie de palco, onde havia uma mesa com cadeiras, o senhor Oto Barcelos, muito bem vestido e cheiroso como sempre, a distribuir sorrisos em todas as direes, era sem dvida a figura principal daquele evento, como comprovava o interesse do pessoal da imprensa.
  -- Considero esta campanha vitoriosa -- ele dizia eufrico. -- Mas no vamos parar por aqui. Estou pensando em fazer qualquer coisa bastante significativa pela velhice desamparada.
  A frase coincidiu com *flashes* dos fotgrafos e algumas palmas espoucaram pelo salo.
  -- Que corao tem esse homem! -- exclamou uma de suas comandadas.
  -- E  o rei da simpatia! -- acrescentou outra.
  -- Concordam com minha idia? -- perguntou o Baro a todo auditrio.
  -- Penso que se podia fazer uma campanha mais urgente -- obstou uma voz.
  O Baro olhou para um canto do salo e l viu um rapaz numa cadeira de rodas.
  -- J sei -- disse o Baro -- voc certamente se refere a algum trabalho em benefcio dos paraplgicos. Podemos estudar essa hiptese.
  -- No quero advogar em causa prpria -- rebateu o rapaz. -- A sugesto no  essa.
  A essa altura Gino no era apenas um intruso no salo de ch mas algum que despertava atenes. E ele, seguro de seu lance, no se apressou em mover as pe-
 dras.
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  -- A outra campanha deveria ser preferencial, pois de utilidade a todos jovens em geral, pobres e ricos. Talvez seja o senhor a pessoa indicada para inici-la.
  -- Que campanha?
  -- Contra o trfico de txicos.
  -- Esse  um assunto de mbito policial -- disse o Baro. -- Acho que no podemos fazer grande 
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coisa sem o apoio de todos os veculos de comunicao.
  -- O Baro tem razo -- opinou uma das senhora em voz bem alta. --  um problema para a polcia. Est fora de nosso alcance.
  Uma senhora, tambm elegante e tambm de acordo com o Baro, aduziu:
  -- A polcia que se movimente. E o que ela tem feito nesse setor?
  Gino, com as mos nas rodas da cadeira, aproximou-se do pequeno palco.
  -- Ela tem feito muito ultimamente. Nesta manh prendeu uma quadrilha de traficantes, l na represa de Santo Amaro -- noti-
ciou Gino com os olhos fixos no Baro.
  O senhor Oto Barcelos levou um susto mas preferiu acreditar que apenas a coincidncia levara aquele paraplgico ao salo de ch. Mas precisava telefonar. Desceu do praticvel e dirigiu-se  portaria onde havia um telefone. Nervosamente, ps um cigarro na boca. Discava com a mo direita enquanto com a esquerda tateava no bolso fsforos ou isqueiro.
  Mas algum lhe fez uma gentileza, acendendo-lhe o cigarro com um valioso isqueiro, igual aos que dera como presente a Hans e Malena.
  -- Vai telefonar para Hans, seu Baro?
  Era Leo, a seu lado, com a chama gentil, tentando acender-lhe o cigarro.
  -- O que faz aqui, moleque?
  -- Se pretende falar com Hans  perda de tempo. Ele tambm est preso. Esse isqueiro pertence a ele. A polcia me emprestou por alguns instantes.
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  O Baro desligou o telefone e parecia querer sair do salo, mas, rodeado pelas senhoras e jornalistas, foi novamente levado ao palco para falar sobre os resultados da campanha e responder a eventuais perguntas. Certamente no estava to desinibido e sorridente como h minutos atrs. E sua aparncia piorou ainda um pouco mais ao notar entre seus admiradores o doutor Arruda, o detetive Lima e alguns policiais.
  -- Bem, eu fiz o possvel para que essa campanha filantrpica fosse um sucesso -- disse ele. -- Acho que no mundo realmente o que falta  um pouco de bondade. Se trabalhei bem espero que sigam o meu exemplo, pois, como homem de negcios que sou, talvez tenha que me retirar da cidade por algum tempo. E se algum dia ouvirem falar de mim qualquer coisa menos digna, no acreditem porque o mun-
do infelizmente est cheio de caluniadores.
  Em seguida, o Baro desceu do palco e foi cumprimentar o doutor Arruda.
  -- Veio a servio? -- perguntou.
  -- Sim -- respondeu o delegado.
  -- Mas espero que isso no o impea de tomar um ch em minha companhia e dessas generosas senhoras. Como gosta? Com ou sem torradas?
  O doutor Arruda aceitou o convite e foi sentar-se a uma mesa adornada com um jarro de flores juntamente com mais duas senhoras muito conhecidas e amveis. O ch permitiu ao Baro recobrar aparentemente a tranqilidade, e como tinha um inato senso de humor confessou s suas companheiras de ideais:
  -- O delegado est me convencendo a participar da campanha contra os txicos. Acho que vou cooperar.

Um final muito, muito feliz

  E tudo terminou numa festa bem  italiana, bem  Bexiga, na casa dos Fantini, num domingo todo dedicado, desde cedo,  comemorao do retorno de Leo ao emprego no hotel e da magnfica vitria que ele e Gino obtiveram contra 
 "a poderosa e astuta 
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quadrilha de traficantes de txicos", como os jornais a rotularam. Mas, por sugesto do doutor Arruda, inteiramente acatada pelos jornalistas, nomes, retratos e endereos dos primos no constavam das reportagens para evitar futuras vinganas. A participao deles, porm, foi descrita em todos os detalhes, inclusive a luta que empreenderam contra o descrdito policial. Numa foto, o doutor Arruda aparecia com a mo aberta, expondo-a a uma hipottica palmatria, sem dvida a que mais agradou ao mensageiro e ao enxadrista da cadeira de rodas.
  A festa, na verdade, foi uma reunio de parentes e amigos, com muitos petiscos de vrias regies italianas, muita macarronada e mais vinho do que a prudncia aconselhava. Tia Zula e dona Iolanda trabalharam desde cedo na preparao do banquete, e Diogo, orgulhoso do irmo, acompanhado do nono Pascoal, foi mais de mil vezes aos emprios e mercados para compras adicionais. O Guima,  claro, chegou bem cedo, e foi quem mais contou os lances de Leo e Gino contra os quadrilheiros. Percival, o gerente do Park, desajeitado, apareceu, mas no se demorou muito. E o detetive Lima, trazendo um abrao do doutor Arruda, chegou na hora exata do almoo. As cabeceiras da mesa foram destinadas a Leo e Gino, que  distncia trocavam olhares ex- 
 pressivos. Estavam to felizes que haviam perdido o apetite.
  O que mais se comentou  mesa foi a reao das senhoras que trabalhavam com o Baro na campanha de benemerncia. Todas haviam declarado que no acreditavam que ele tivesse qualquer relacionamento com contrabandistas, apesar de tudo que Hans declarara para incrimin-lo, safando-se da responsabilidade do assassinato de Ramon Vargas. E elas tinham seus motivos para pensarem assim porque o Baro no confessou nada, atribuindo sua priso a um lamentvel equvoco que um dia seria esclarecido.
  -- Um viva para Leo e Gino -- exigia Rafa com o copo de vinho bem alto.
  -- Vivaaaaaa! -- repetiam todos precipitando-se em encher os copos.
  Mas em meio a tanta alegria houve um momento em que Leo ficou triste. Quando se lembrou de ngela. No mesmo dia do salo de ch, quando algemaram o Baro, ele correu para o Morro dos 
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Ingleses. Rita o recebeu com um grande sorriso, pois j ouvira a notcia pelo rdio. Logo depois surgia ngela e abraava-o. No tiveram tempo porm de trocar palavras. Os pais da moa, carregando malas, apareceram no 
 *living*. Soube ento que todos iam viajar naquele instante. Ficariam dois meses na praia. E estavam com muita pressa.
  -- Quando eu voltar voc me conta tudo -- disse ngela, todos j no elevador.
  -- Por qu? Vai sair nos jornais -- disse seu pai.
  -- Odeio essas histrias de crimes -- declarou a me com ar enojado.
  Leo contou esse fato para o primo Gino apenas no domingo, pouco antes da macarronada.
  -- O que diz disso? -- perguntou.
  -- Acho que escadas e barreiras atrapalham a vida at dos que tm boas pernas -- disse Gino com um ar vagamente filosfico.
  Leo no entendeu. Ele estaria referindo-se a obstculos sociais? Isso de pobres, remediados e ricos?
  -- O que quer dizer, primo?
  Gino j pensava noutra coisa.
  -- Leo, j escolhi minha profisso.
  -- Qual?
  -- Arquiteto.
  -- No diga!
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  -- Vou colocar uma rampa em cada edifcio. Farei uma cruzada nacional contra as escadas. No adianta a gente se lamentar.  preciso fazer alguma coisa -- concluiu Gino, rindo e aceitando um enorme copo de sangria que Rafael lhe passava.
  Leo voltou a lembrar do belo carro do pai de ngela levando a famlia para as frias. Dois meses. Ele seria ainda um heri dentro de sessenta dias? Ou tudo estaria esquecido?
  -- Pai, me d uma sangria -- pediu ao Rafa que vagava pela sala com um jarro na mo, enchendo ou reenchendo os copos dos convidados.
  O veterano lanou-lhe um olhar que localizava alguma tristeza em meio  alegria da festa.
  -- O que h, filho? Est tudo bem?
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  -- E no  pra estar, pai? Vamos. A sangria.

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Fim da Obra
